A Viagem - Vozes Que Te Alertam (Jornalista Conceição Queiroz)
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A Viagem – Vozes Que Te Alertam (Jornalista Conceição Queiroz)

 

No fundo, não queria seguir naquela viagem. A carrinha lilás acinzentada enchia demasiado as vistas e ele não é disso, gosta do livre acolhimento, saudável, incondicional. Não queria ir, a consciência falava, tal como disse nos últimos anos: Fica, não vás.

Na verdade, durante anos, convite atrás de convite, não embarcou nas patuscadas lá ao longe, noutra região. Inventava desculpas ou algo inesperadamente sucedia. Lucas sabia que aqueles dias seriam de puro lixo, o desperdício notável. Folgas e férias que não iria recuperar.

Sem nunca ter ido, vislumbrava o cenário metodicamente agressivo, era visitado por sombras dessa possível deslocação. Desculpem a redundância.
Ele sabia que não devia.

O arrependimento mata?
Daquela vez aceitou. Poderia sanar eventuais danos, talvez mal entendidos que preencheram a última década, por nunca ter dito ‘sim’, apesar de serem amigos próximos há longos anos. Mesmo assim, cansava-se à distância, nem sabia bem a razão. Aceitou.
Aceitou passados anos e meses, semanas e dias, horas, segundos, tudo com minúcia fora contabilizado.
Ele não devia. Levou a namorada com quem mantinha uma relação cobiçada, inclusivamente pelos ditos, os anfitriões, donos da casa, mas que também se julgavam proprietários de cada esquina e viela daquela terra fora de mão, à qual Lucas cedeu, tanto tempo após ignorar centenas de telefonemas e eufóricas mensagens. A deslocação era agora uma espécie de reparação e tudo certo até aí.

Lucas era pacato, mas saiu do eixo ainda durante a longa viagem, tremeu naquela estrada interminável, o casal respondeu a latir o tempo todo, impondo regras medonhas, recomendações inusitadas, a triste tirania dos entendidos. O ambiente tão rapidamente virou desprezível.“Amanhã atravessamos a pé uma ponte que fica ao sul”, “põe o despertador para as quatro e meia da manhã”, “se tomares café, acorda mais cedo para sairmos às cinco em ponto”, “depois comemos ao meio-dia e vai ser um peixe frito”, “tens casaco? Ao anoitecer faz frio. Ãh? Não trouxeste roupa quente? Não pode ser. Quando chegarmos vejo se tenho qualquer coisa que te empreste”.
O cúmulo.

Foi infernal o caminho até estacionarem na vila do interior profundo, em desnecessária gritaria. A mulher do outro berrou e falou sozinha durante as cinco horas de viagem, doentio egocentrismo. De Lucas e da namorada, nenhuma palavra proferida. Até iniciavam uma ou outra frase, que ficava sem conclusão, não lhes era permitido.

Isto é anormal – pensou, repensou, desmoralizou, nada havia a fazer, já estavam na boca do jacaré. Lucas e a companheira não suportaram e na aldeia, uma única noite foi passada. A violência da discussão sacudiu o lugar emblemático. Passavam 12 minutos das quatro da madrugada, acordados, a dona da casa personificava a odiosa déspota e a dado momento conseguiu com que se esvaísse toda a pacatez de Lucas. Certeiro, tentou o resgate, ela não escutava, centrou-se ainda mais em si mesma. Ele, espírito livre, tão bem acompanhado, jamais devia ter ido. Havia evidências, provas de que aqueles anfitriões que durante anos teve como amigos, de nada serviam. A manipulação é satânica. Cuidado com o choro depois da forte risada. De que se alimentam as criaturas?
Silêncio.

São ladrões da bondade, cogitou. Superiores e astutos? Fingidos e capazes de esconder os seus maiores segredos?
A resposta é não.
Nada sobra da sua existência vazia, dessa real natureza insaciável. Tudo possuem e nada lhes basta. Os trastes crescem como pãezinhos quentes.

Sem dormir, Lucas e a mulher fizeram quilómetros a pé, apanharam um velho comboio que dali partiu pelas 7 da manhã. Seguiram de volta no abraço das profundezas, tinham os lugares G e H, longe de outros ladrões, da bondade, da beleza, da gentileza, que agora identificam num ápice.

Lucas não devia ter ido.
No final das contas, sai bastante caro contrariar a voz que te alerta. Algo é certo: o vosso pecado há-de vos encontrar.

Quem é Conceição Queiroz

Conceição Queiroz é jornalista há mais de 30 anos, grande repórter e âncora em alguns dos principais veículos de comunicação de Portugal. Ao longo da carreira, realizou reportagens em diversos países, dirigiu a Informação da Televisão de Cabo Verde e recebeu 25 prémios de jornalismo. É também professora universitária, autora de cinco livros, documentarista e argumentista. Licenciada em Sociologia, mestre em História Moderna e Contemporânea e doutoranda em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa, foi distinguida pela Liga Portuguesa dos Direitos Humanos e reconhecida entre as 100 personalidades negras mais influentes da Lusofonia. Assina a coluna Entre Linhas – Direto de Portugal, publicada no Jornal do Rio de Janeiro.

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